É cruel e ineficaz incendiar balsas de ribeirinhos garimpeiros

Não se resolve um problema social ateando fogo nele

Por Leandro Narloch

1 de dezembro de 2021

Imagem
Foto: Reprodução/Twitter/Greenpeace.

Um amigo meu conta que, aos 9 ou 10 anos, tinha ideias absurdas e totalitárias para resolver problemas do Brasil. Diante da criminalidade em favelas, “eu achava que o governo deveria bombardear os morros do Rio de Janeiro e tudo estaria resolvido”, diz ele hoje obviamente envergonhado.

Um desvario infantil como esse parece ter inspirado a ação do Ibama e da Polícia Federal, coordenada pelo Ministério da Justiça, que incendiou mais de 130 balsas de garimpo no rio Madeira. 

Como uma criança de 9 anos, o Ministério da Justiça e diversos ambientalistas acham que é justo e possível resolver um problema social simplesmente incendiando-o.  

Depois da operação, centenas de famílias ficaram isoladas em povoados ribeirinhos, sem ter como voltar para casa. A prefeitura da cidade de Borba teve que arranjar abrigo para 340 pessoas, incluindo mulheres e crianças, segundo “O Globo”. Em Autazes, a prefeitura acolheu setenta desabrigados.  

Na comunidade de Rosarinho, moradores distribuíram lençóis e alimentos para famílias que tiveram as balsas queimadas, informa o jornal “A Crítica”, de Manaus. 

A imprensa do Sudeste pouco divulgou, mas houve diversos protestos nas cidades da região. Em Novo Aripuanã, uma menina segurava uma cartolina: “garimpeiro não é bandido”. 

Nem o Greenpeace Brasil nem o vice-presidente, Hamilton Mourão, se sensibilizaram com a calamidade provocada pelos policiais. Ambos comemoraram a operação.  

Segundo o IBGE, 47,4% da população do Amazonas está abaixo da linha da pobreza – mais que no Piauí (43%) e Alagoas (47,2%). Como contou o repórter da Folha Fabiano Maisonnave, que foi à região em 2016, os garimpeiros do rio Madeira são em geral ribeirinhos descendentes de indígenas e de nordestinos. Muitos abandonaram a pesca depois da construção das barragens de hidrelétricas durante governos petistas. 

Incêndios da PF para destruir equipamentos não são novidade – acontecem há anos, sem conseguir conter o avanço do garimpo ilegal. É difícil pensar numa atitude mais estúpida. 

Gasta recursos públicos em helicópteros e policiais, destrói a escassa economia dos moradores, tira empregos de cozinheiras e funcionários das lavras, cria um rastro de incêndio e enormes manchas de óleo diesel pelo rio, e não resolve o problema. Alguém duvida que em três ou quatro meses as imagens das balsas se repetirão?  

Ambientalistas estão certos ao se preocupar com a contaminação dos rios da Amazônia por mercúrio usado nas lavras. Mas erram ao achar que banir a atividade inteira vai dar resultado. 

Em vez de insistir num proibicionismo semelhante à guerra às drogas, não seria mais frutífero se ambientalistas ajudassem garimpeiros a adotarem técnicas que dispensam ou reduzem o uso mercúrio? 

Como disse a Maisonnave o professor Marcelo dos Anjos, especialista em Conservação de Ecossistemas Aquáticos da Universidade Federal do Amazonas, “a ilegalidade promove um impacto muito maior. O que se deveria fazer é regular, por meio de cooperativas de garimpeiros, e criar protocolos que eles possam seguir a fim de minimizar o impacto previsto da atividade”. 

Mas basta alguém propor facilitar a legalização dos garimpos para ser acusado por ativistas e jornalistas de defender o “afrouxamento de regras ambientais”. É um exemplo claro de como o dogmatismo de boa parte dos ambientalistas prejudica o meio ambiente no Brasil.

Originalmente publicado na Folha de S. Paulo.