Insustentabilidade ambiental

Por Anselmo Heidrich

27 de setembro de 2021

Já repararam que hoje em dia, em meio ao clima político de bipolarização do país, há vários pontos em comum entre ambos extremos do espectro político? E um deles é, justamente, a demonização de um discurso ambiental propositivo e adoção de uma perspectiva revolucionária, emancipacionista, autonomista frente a interesses externos, quiçá, ocultos. 

Vejamos a seguir uma das mensagens correntes em “clima eleitoral pós-eleições” em apoio a Bolsonaro por ocasião dos incêndios na Amazônia em 2019, com a veiculação da imagem abaixo:

Estava assim mesmo, em letras garrafais para maior aderência mental. Já que o conteúdo é pobre, a forma se sobressai, mas vamos aos fatos:

  • Em 2002 havia 276 mil fundações empregando 1,5 milhão de pessoas;
  • Cerca de 80% dessas ONGs estão localizadas nas regiões Sul e Sudeste do país, sendo 40% no estado de São Paulo;

E o mais importante em relação à fake news acima:

  • A imagem não é amazônica, cuja flora e vegetação superior de florestas latifoliadas não se caracterizam por pinheiros de zona temperada;
  • Os fogos são de incêndios florestais ocorridos na Califórnia desde 2018, cujas imagens estão disponíveis em vários sites, como Audubon California, dentre outros. 

E se engana quem acha que este tipo de deturpação seja exclusividade da direita brasileira ou “nova direita”, como alguns preferem chamar. Vejamos aqui uma análise de um conhecido militante, Leonardo Boff

(…) o modelo de desenvolvimento sustentável é retórico. Aqui e acolá se verificam avanços na produção de baixo carbono, na utilização de energias alternativas, no reflorestamento de regiões degradadas e na criação de sumidouros de dejetos. Mas tudo é realizado desde que não afete os lucros. A utilização da expressão “desenvolvimento sustentável” possui uma significação política importante: representa uma maneira hábil de desviar a atenção da mudança necessária do paradigma econômico se quisermos uma real sustentabilidade. Dentro do atual, a sustentabilidade é ou localizada ou inexistente.

Boff parte da premissa de que existe um “modelo padrão” de desenvolvimento sustentável, enquanto que, na verdade, ele está em construção, bem ao modo da própria ciência, através de ensaio e erro. O que ele entende por padrão são as inter-relações de mercado, isto é, a própria economia de mercado, ignorando, convenientemente, todos os impactos e desastres ambientais ocorridos em economias centralmente dirigidas, que ele e outros idealizam com o nome de “socialismo”. 

Também não é conveniente para Boff que o mesmo “modelo padrão” que demoniza foi responsável pela queda brutal das taxas de analfabetismo mundiais, condição fundamental ao desenvolvimento social, que é um dos pilares do chamado desenvolvimento sustentável:

Ou a redução mundial da fome que, ao contrário do que vaticina Boff, não são de “1,4 bilhão de famintos no mundo”, mas de 255 milhões e em tendência de queda:

Quanto às emissões de gases-estufa, uma parte da história é dizer que “de 1998 para cá, houve um salto de 35%”, mas outra parte importante é dizer que a reversão disso em regiões-core do sistema capitalista está ocorrendo e sinaliza uma tendência mundial:

Ainda que todos esses avanços se deem desigualmente, no tempo e no espaço, isto é, em ritmos variados, a tendência geral é de queda e flagrante evolução positiva do “modelo padrão” desprezado por Boff. E o que eu considero mais importante, se o capitalismo é o modo de produção ou sistema econômico, como queiram chamar, reinante no globo, então as diferenças não se devem a ele, mas às características endógenas dos países que o adotam, sua geografia, história, culturas e, principalmente, cultura política que contribuem para histórias únicas que têm igualmente resultados únicos.

Se Boff tenta reduzir todo passado da história econômica mundial a um modelo teórico capaz de explicar um suposto insucesso fruto de sua imaginação, então todo fracasso futuro de suas experiências também deverá vir do modelo teórico que imagina ser melhor. Mas daí, podem apostar tanto Boff quanto os críticos do capitalismo sacarão rapidamente de seu coldre retórico a velha arma do argumento de que “não souberam aplicar corretamente o socialismo proposto por fulano de tal…”.

Em suma, imperfeições alheias são culpa de todo o sistema, nunca de agentes históricos de carne e osso, mas insucesso de suas propostas é culpa dos outros que “não deixaram funcionar”. Bem, eu já ouvi falar em “tecnologia reversa”, “psicologia reversa”, mas lendo Leonardo Boff penso que já está na hora de falarmos em verdade reversa, basta acompanhar o autor e deduzir que o contrário do que escreve é que é verdade.

Quando se fala em meio ambiente não se deve adotar uma perspectiva “religiosa” para resolver os problemas ligados a ele, mas sim, um método econômico. A economia não trata de dinheiro, mas de escassez e escolhas. Desvencilhar economia de meio ambiente é tudo, menos a ideia de um modelo sustentável. Portanto, ignore negacionistas e ilusionistas que ora negam ações necessárias acreditando em mitos, ora negam a evolução de longo prazo. Se eles se diferenciam em suas propostas, o que importa é que se igualam em suas mentiras.