Perdendo-se na natureza

Por Anselmo Heidrich

06 de setembro de 2021

Dois anos ele caminha pela terra. Sem telefone, sem piscina, sem animal de estimação, sem cigarros. Liberdade definitiva. Um extremista. Um viajante estético cujo lar é a estrada. Fugido de Atlanta, não retornarás, porque “o Oeste é o melhor”. E agora depois de dois anos errantes chega à última e maior aventura. A batalha final para matar o ser falso interior e concluir vitoriosamente a revolução espiritual. Dez dias e noites de trens de carga e pegando carona trazem-no ao grande e branco Norte. Para não mais ser envenenado pela civilização, ele foge e caminha sozinho sobre a terra para perder-se na natureza.
— Alexander Supertramp, pseudônimo de Christopher Johnson McCandless. 

Quem já viu o filme Na Natureza Selvagem, cujo título original, Into the Wild, baseado no livro homônimo de Jon Krakauer ou ainda foi tocado pela bela e ao mesmo tempo triste trilha sonora feita por Eddie Vedder, sabe como o meio ambiente mesclado a uma rebeldia difusa contra o sistema e a família tradicional, sociedade consumista etc. tem apelo certeiro entre os jovens.

É muito mais fácil buscar uma lógica monocausal que explique todos os males de nossas vidas do que se debruçar sobre a realidade multifatorial. Mas, espere, isto não é só com jovens.

Quantas vezes não ouvimos dizer de parentes e amigos que o mal está entre nós, que nos persegue, precisamos os purificar? O triste nisso tudo é que uma sensação de mal-estar civilizacional nos leva ao esquecimento de que a crítica a ela é fruto da própria liberdade alcançada pela civilização. 

Bem, para quem não sabe do que se trata, vai aqui um aviso: habemus spoiler. Não há como comentar um livro ou filme sem passar alguns detalhes sobre o mesmo, embora não seja esse o objetivo. A história é basicamente a seguinte: Christopher Johnson McCandless, um garoto egresso de uma escola de elite na costa leste dos Estados Unidos, membro de uma família financeiramente bem-sucedida, tem uma decepção com seu pai devido ao seu relacionamento extraconjugal.

Inspirado em leituras de ruptura com o status quo e de retorno a uma vida distante dessa corrupção moral, resolve mergulhar de cabeça em uma viagem de aventuras na América do Norte. Nisso vai ao Golfo da Califórnia no México e depois ruma ao norte até o Alaska, cometendo um “suicídio de classe”, isto é, abdicando do luxo e conforto que usufruía e se desliga dos vínculos familiares. 

A viagem de Chris McCandless (fonte: https://www.tripline.net/trip/Chris_McCandless_-_Into_The_Wild-17200000370610078BEEE29FA7AD6A1A). 

Até aí, nada muito diferente do que já vimos em outros casos de adolescentes que “foram além” de um ponto de inflexão onde a maioria fica retida apenas criticando quem lhes subsidia numa luta quixotesca contra o FMI, o Banco Mundial, os países da OCDE ou um vago sentido do que seja o “capital financeiro mundial”.

McCandless cruzou a linha e isto foi o suficiente para selar sua morte por inanição na carcaça de um ônibus abandonado em Stampede Trail, no interior do Alaska em 1992.

Imagine você tentando sobreviver no ambiente selvagem de temperaturas de 40 graus negativos no inverno “treinado” por leituras e grandes doses de romantismo, sem experiência prévia em nenhum tipo de sobrevivencialismo. 

Apesar de tudo, não se tratava de alguém irredutível e sem senso autocrítico, McCandless percebeu seu erro, ou melhor, sua sucessão de erros e tentou retornar, embora fosse tarde demais.

Consumiu uma planta tóxica ao confundi-la com outra comestível, o que não causaria grande estrago além de alguma indigestão, mas como estava muito debilitado e subnutrido, isso só piorou a situação.

Por fim, capengando como um figurante em Walking Dead tentou, em vão, cruzar um pequeno córrego que atravessara vadeando com facilidade na vinda, mas com a chegada da primavera nas altas latitudes, o degelo aumentava enormemente sua vazão transformando-o em um verdadeiro rio de corredeiras. Com a passagem bloqueada e exausto voltou ao ônibus abandonado que lhe serviria como túmulo improvisado e se entregou, como um guerreiro esperando ser libertado de sua dor.

Não podemos dizer, mas podemos especular o que sentia enquanto olhava o teto enferrujado de sua morada improvisada, a vida que tanto admirava, livre e independente também era a que o prostrava diante da seleção natural, na qual somos uma peça insignificante do grande todo.

McCandless podia ter seus problemas pessoais, talvez não tivesse estrutura psíquica para suportar, talvez fosse acometido de algum transtorno, depressão, sei lá, não sabemos. Não podemos julgar sem levar em conta possíveis condicionantes, mas podemos sim julgar aqueles que se sentem inspirados pelo romantismo de quem enaltece o que foi um suicídio lento, gradual e torturante, de quem faz apologia de jovens contra “o sistema”, como se fossem um Davi contra seus Golias, como se fossem um Dom Quixote contra seus moinhos imaginários em fado fatal.  

O ônibus onde caçadores encontraram o corpo de McCandless. Reprodução: Na Natureza Selvagem.

Esta história que serve como parábola do ideal de retorno à natureza pode não representar o caso concreto da maioria, mas serve para explicar o imaginário coletivo que diz amar a natureza, se reaproximar dela sem medir as consequências ou tampouco observar detalhes decisivos para a realização desses sonhos.

Também não se trata de pôr água nas chamas que iluminam os desejos alheios, mas sim que crenças não fundamentadas de como deveria ser viver em contato com a natureza, precisam se apoiar em fatos e dados objetivos, sob o risco de pagar antecipadamente por esse projeto de vida com sua morte antecipada. A natureza selvagem não é chamada assim à toa, só porque cabe como atrativo nos posters afixados nas entradas do cinema, mas porque selvagem condiz com luta, competição, sobrevivência e principalmente adaptação. E por adaptação também se subentende uma cadeia alimentar onde McCandless foi deslocado do topo para a base. 

Calçados forrados e camisas de flanela embaixo de grossos casacos impermeáveis do alasquiano não são por acaso, resultam de séculos de adaptação social baseados no desenvolvimento tecnológico e produção em larga escala. Não será por vontade de um indivíduo nos estertores do século XX que isso seria abandonado, e se eu me embrenho na taiga com esta tecnologia me iludo ao pensar que faço isso sozinho como um desbravador.

Quem já ouviu o rugido de um lobo-guará como eu na Serra da Canastra, em Minas Gerais, sabe o que a natureza selvagem pensa de ti ao tentar cruzar uma linha imaginária que diz NÃO ULTRAPASSE. Você, simplesmente, vira um alvo a ser eliminado. 

O que o garoto deveria se perguntar é como gerações após gerações de homens e mulheres de médias e altas latitudes fizeram para se adaptar e sobreviver. Não foi por rompante, não foi por coragem destemida, também não foi por nenhum senso de heroísmo contra uma vida alienante da grande cidade, foi simplesmente porque não tinham outra alternativa viável no momento e que, assim como lobos americanos e cães das savanas africanas têm uma maior taxa de eficácia na caça em comparação com grandes felinos porque se associam, nós humanos não fugimos à regra. Claro que nem tudo são flores, para isso temos que suportar vidas conjugais monótonas e impostos extorsivos, mas no final das contas, vale a pena. 

Pessoal, eu também gosto de acampamentos, churrascos, ouvir o barulho do rio e ver o céu estrelado acalentado pelo crepitar da fogueira. Hoje em dia, vejo tudo isto com mais admiração, mas nunca sem dispensar meios de comunicação para emergência, veículo, saco de dormir, uma mini-farmácia e repelente, muito repelente (que já faz parte da minha cesta básica aqui na borda da Mata Atlântica).

A ruptura com tudo isso não nos liberta, mas nos escraviza junto aos rigores da natureza. A imposição de um modo de vida que separa os aptos dos inaptos leva ao esquecimento e ao grande erro de achar que sempre se fará parte do primeiro grupo.  

Aos pretendentes a novos McCandless, ser rebelde com falsa consciência não trará aplausos do mundo, ser um mártir em busca de uma glória estática pelo reconhecimento em redes sociais não te levará a um nirvana à la carte. Dizem que adrenalina vicia e isto pode ser a química do espírito revolucionário, bem… Se for, então o risco exagerado nessa vida é menos uma opção, menos liberdade e muito mais escravidão de seus desejos.

Esse planetinha não é um supermercado de aventuras para adolescentes entediados que não precisam conquistar suas provisões diariamente. Quer se arriscar? Faça então, mas com suas botas com lã da Nova Zelândia, costuradas no Paquistão com borracha vietnamita. E não esqueça da sua faca desenhada em San Francisco e produzida na China sob um manto de tecido sintético com subprodutos do petróleo.

Lembre-se que você é um exemplar desse esforço coletivo que tornou nossa espécie dominante e nem por isso deveria se autodestruir para provar que a natureza tem sua beleza.

POR ANSELMO HEIDRICH


Anselmo Heidrich é mestre em Geografia Humana pela USP, coautor do livro “Não culpe o capitalismo” e professor no Instituto Federal do Rio Grande do Sul.